sábado, 8 de junho de 2013

Papa Francisco: “O Espírito Santo é o verdadeiro motor da evangelização”

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Queridos irmãos e irmãs, bom dia.
No Credo, depois de ter professado a fé no Espírito Santo, dizemos: “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”. Existe uma ligação profunda entre estas duas realidades de fé: é o Espírito Santo, de fato, quem dá vida à Igreja, guia os seus passos. Sem a presença e a ação incessante do Espírito Santo, a Igreja não poderia viver e não poderia realizar a missão que Jesus ressuscitado lhe confiou, de ir e fazer discípulos todas as nações (cf. Mt 28:18). Evangelizar é a missão da Igreja e não apenas de alguns, mas a minha, a sua, a nossa missão. O apóstolo Paulo exclamou: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho” (1 Cor 9,16). Todos devem ser evangelizadores, especialmente com a vida! Paulo VI destacou que “Evangelizar… é a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar” (Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, 14).
Quem é o verdadeiro motor da evangelização em nossas vidas e na Igreja? Paulo VI escreveu com clareza: “É ele, o Espírito Santo que, tanto hoje como no início da Igreja, age em cada evangelizador que se deixa possuir e conduzir por Ele, que lhe sugere palavras que ele sozinho não conseguiria encontrar, preparando ao mesmo tempo a alma de quem escuta para que esteja aberto a acolher a Boa Nova e o Reino anunciado” (ibid., 75). Para evangelizar, então, é necessário se abrir ao horizonte do Espírito de Deus, sem medo do que ele vai nos pedir ou onde nos levará. Confiemo-nos a Ele! Ele nos fará capazes de viver e testemunhar a nossa fé e iluminará o coração daqueles com quem nos encontrarmos. Esta foi a experiência de Pentecostes: aos Apóstolos reunidos com Maria no Cenáculo, “apareceram línguas como de fogo, que se separaram e pousaram sobre cada um deles e todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, da maneira que o Espírito lhes concedia que falassem” (Atos 2:3-4). O Espírito Santo ao descer sobre os Apóstolos, os fez sair da sala em que estavam fechados por medo, os fez sair de si e os transformou em anunciadores e testemunhas das “grandes obras de Deus” (v. 11). E essa transformação operada pelo Espírito Santo se reflete na multidão vinda “de todas as nações debaixo do céu” (v. 5), de modo que cada um ouvia as palavras dos Apóstolos como se fossem em sua própria língua (v. 6 ).
Aqui está um primeiro efeito importante da ação do Espírito Santo que guia e inspira o anúncio do Evangelho: a unidade, a comunhão. Em Babel, de acordo com a Bíblia, havia começado a dispersão dos povos e a confusão das línguas, resultado da arrogância e do orgulho do homem que queria construir com suas próprias forças, sem Deus, “uma cidade e uma torre cujo cume tocasse os céus” (Gn 11:04). No dia de Pentecostes, estas divisões são superadas. Não há mais orgulho contra Deus, nem o fechamento de um ao outro, mas há abertura para Deus, o sair para anunciar sua palavra: uma nova linguagem, a do amor que o Espírito Santo derrama em nossos corações (cf. Rm 5,5), uma linguagem que todos possam entender e que, acolhida, podia ser expressada em cada ser e em cada cultura. A linguagem do Espírito, a linguagem do Evangelho é a linguagem da comunhão, que convida a superar bloqueios e indiferenças, divisões e conflitos. Todos nós devemos nos perguntar: como me deixo ser guiado pelo Espírito Santo a fim de que a minha vida e meu testemunho de fé sejam de unidade e comunhão? Levo a mensagem de reconciliação e de amor, que é o Evangelho nos lugares onde moro? Às vezes parece que hoje se repete o que aconteceu em Babel: divisões, incapacidade de compreender o outro, rivalidade, inveja, egoísmo. O que eu faço com a minha vida? Promovo a unidade próximo a mim? Ou divido com conversa fiada, críticas, inveja? O que eu faço? Pense nisso. Levar o Evangelho é proclamar e vivermos nós primeiro: a reconciliação, o perdão, a paz, a unidade e o amor que o Espírito Santo nos dá. Lembremo-nos das palavras de Jesus: “Nisto todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13:34-35).
Um segundo elemento: no dia de Pentecostes, Pedro, cheio do Espírito Santo, se levanta “com os onze” e “em voz alta” (Atos 2:14), “com ousadia” (v. 29) anuncia a boa nova de Jesus, que deu a vida pela nossa salvação e que Deus ressuscitou dentre os mortos. Aqui é outro efeito do Espírito Santo: coragem para anunciar a novidade do Evangelho de Jesus a todos, com a auto-confiança (parresia), em alta voz, em todo tempo e lugar. E isso acontece ainda hoje para a Igreja e cada um de nós, pelo fogo de Pentecostes, pela ação do Espírito Santo, se desenvolvem sempre novas iniciativas de missão, novas maneiras de proclamar a mensagem de salvação, uma nova coragem para evangelizar. Não nos fechemos nunca a esta ação!Vivamos com humildade e coragem o Evangelho! Testemunhemos a novidade, a esperança, a alegria que o Senhor traz para a vida. Sintamos em nós “a doce e reconfortante alegria de evangelizar” (Paulo VI, Exortação Apostólica. Evangelii Nuntiandi, 80). Porque evangelizar, proclamar Jesus, nos traz alegria, enquanto o egoísmo nos traz amargura, tristeza, nos deixa para baixo, evangelizar nos eleva.
Menciono apenas um terceiro elemento, que é particularmente importante: uma nova evangelização, uma Igreja que evangeliza deve sempre começar pela oração, de pedir, como os Apóstolos no Cenáculo, o fogo do Espírito Santo. Só o relacionamento fiel e intenso com Deus permite que saiamos de nosso fechamento e anunciemos o Evangelho com parresia. Sem oração nossas ações tornam-se vazias e nosso anúncio não tem alma, não é animado pelo Espírito.
Queridos amigos, como disse Bento XVI, a Igreja hoje “sente especialmente o vento do Espírito Santo que nos ajuda, nos mostra o caminho certo e assim, com novo entusiasmo, estamos no caminho e damos graças ao Senhor” (palavras da Assembleia do Sínodo dos Bispos, 27 de outubro, 2012). Renovemos a cada dia a confiança na ação do Espírito Santo, confiança de que Ele age em nós, Ele está dentro de nós, que nos dá o fervor apostólico, a paz, a alegria. Deixemo-nos guiar por Ele, sejamos homens e mulheres de oração, que testemunham o Evangelho com coragem, tornando-se instrumentos de unidade e de comunhão com Deus.
Obrigado.

domingo, 2 de junho de 2013

O culto dos Mártires – exortação e interpretação do martírio na Igreja de hoje

      

       Podemos pensar, que o martírio e os mártires é coisa do passado, que na sociedade actual, já não existem perseguições, mas infelizmente o martírio que esteve presente em toda a história da Igreja ao longo de vinte séculos.

      O século XX, a par dos seus grandes avanços apresenta-se talvez como o mais sangrento de todos, os estudiosos calculam que, ao longo do século, 170 milhões pessoas tenham tido uma morte violenta, sem contar com os soldados que morreram nas guerras, o que faz que este século seja chamado o “século do martírio”. Só no ano 2000 morreram cerca de 160.000 vítimas de perseguições religiosas, especialmente nos países do chamado Terceiro Mundo.
         Na encíclica, “No Limiar do Terceiro Milénio” o Papa João Paulo II faz questão de lembrar ao mundo a velha máxima de Tertuliano; «Sanguis martyrum, semen christianorum» na a qual; “A Igreja encontrou sempre, … uma semente de vida, esta célebre «lei» sujeita à prova da história, sempre se mostrou verdadeira. Porque não haveria de o ser também no século e milénio que estamos a começar? Talvez estivéssemos um pouco habituados a ver os mártires de longe, como se se tratasse duma categoria do passado associada especialmente com os primeiros séculos da era cristã. A comemoração jubilar descerrou-nos um cenário surpreendente, mostrando o nosso tempo particularmente rico de testemunhas, que souberam, ora dum modo ora doutro, viver o Evangelho em situações de hostilidade e perseguição até darem muitas vezes a prova suprema do sangue. Neles, a palavra de Deus, semeada em terra boa, produziu o cêntuplo (cf. Mt 13,8.23). Com o seu exemplo, indicaram-nos e de certo modo aplanaram-nos a estrada do futuro. A nós, resta-nos apenas seguir, com a graça de Deus, as suas pegadas.”
     A Igreja dos primeiros séculos, embora enfrentando muitas dificuldades de organização, deu-se ao cuidado de deixar escrito em martirológicos o testemunho dos mártires. Actualmente esta tarefa não é fácil pois “no nosso tempo, os mártires voltaram muitos deles anônimos, «soldados desconhecidos», por assim dizer, da grande causa de Deus”.
      Contudo João Paulo II diz-nos que: “A consciência penitencial não nos impediu, porém, de dar glória ao Senhor por tudo o que Ele fez ao longo dos séculos, de modo particular neste último que deixámos para trás, assegurando à sua Igreja uma longa série de santos e de mártires”. Do mesmo modo o Papa diz-nos que o ano do Jubileu beatificou ou canonizou muitas destas testemunhas.
         Do mesmo modo “Muito se fez também, por ocasião do ano santo, para recolher as memórias preciosas das Testemunhas da fé do século XX. … É uma herança que não se deve perder, mas fazer frutificar num perene dever de gratidão e num renovado propósito de imitação”.
      Como vemos a Igreja não esquece aqueles que dão testemunho da sua e sofrem o martírio ainda atualmente. A constituição Sacrosanctum Concilium ainda que sem falar explicitamente dos mártires diz-nos que: “A Igreja, segundo a tradição, venera os Santos e as suas relíquias autênticas, bem como as suas imagens. É que as festas dos Santos proclamam as grandes obras de Cristo nos seus servos e oferecem aos fiéis os bons exemplos a imitar
       O martírio atualmente está presente mais do que nunca na Igreja, assim deste modo os cristãos de hoje a exemplo do que fizeram Padres da Igreja, são exortados ao martírio como à vinte séculos atrás: “Desde os primeiros tempos, e sempre assim continuará a suceder, alguns cristãos foram chamados a dar este máximo testemunho de amor diante de todos, e especialmente perante os perseguidores.” Esta é a mensagem que o Concílio Ecuménico Vaticano II lança a todos os baptizados na constituição dogmática “Lumem Gentium”, o martírio que “embora seja concedido a poucos, todos, porém, devem estar dispostos a confessar a Cristo diante dos homens e a segui-I’O no caminho da cruz em meio das perseguições que nunca faltarão à Igreja”.
        A exortação que a Igreja nos lança é clara, todos devemos estar dispostos a confessar Cristo Também nos avisa que a as perseguições nunca faltaram à Igreja, contudo não devemos ter medo“Por esta razão, o martírio, pelo qual o discípulo se torna semelhante ao mestre, que livremente aceitou a morte para salvação do mundo, e a Ele se conforma no derramamento do sangue, é considerado pela Igreja como um dom insigne e prova suprema de amor”.

Papa Francisco: Cristo é a porta do Reino

Pope Francis

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 17 de 28 de Abril de 2013

         Há uma só porta para entrar no Reino de Deus. E esta porta é Jesus. Quem tentar entrar por outro caminho é «um ladrão» ou «um salteador»; ou ainda é «um arrivista que pensa só na sua vantagem», na sua glória, e rouba a glória de Deus. O Papa Francisco, durante a missa celebrada na segunda-feira 22 de Abril, na capela da Domus Sanctae Marthae, voltou a propor Jesus como centro das vicissitudes humanas e a recordar que a nossa não é uma religião «que negocia». Estavam presentes um grupo de técnicos da Rádio Vaticano e os funcionários da Sala de Imprensa da Santa Sé acompanhados pelos sacerdotes Federico Lombardi e Ciro Benedettini, respectivamente diretor e vice-diretor, que concelebraram, e por Angelo Scelzo, vice-diretor para os credenciamentos dos jornalistas.
          Comentando as leituras da liturgia do dia, tiradas dos Atos dos Apóstolos (11, 1-18) e do Evangelho de João (10, 1-10), o Pontífice recordou que nelas «é repetido o verbo “entrar”. Antes, quando Pedro vai a Jerusalém é repreendido: “Entraste em casa dos pagãos”. Depois, Pedro narra o modo como entrou. E Jesus é muito explícito, nisto: “quem não entra no redil das ovelhas pela porta, não é o pastor”». Para entrar no reino de Deus, na comunidade cristã, na Igreja, «a porta — explicou o Papa — a verdadeira porta, a única porta é Jesus. Devemos entrar por aquela porta. E Jesus é explícito: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta — que é Ele — mas entra por outro lado, é um ladrão ou um salteador”, alguém que quer ter lucro para si mesmo».
        Isto, notou, acontece «também nas comunidades cristãs. Há esses arrivistas, não?, que procuram vantagens. E consciente ou inconscientemente fingem que entram; mas são ladrões e salteadores. Por quê? Porque roubam a glória a Jesus, querem a própria glória. E é isto que Jesus dizia aos fariseus: “Vós roubai-vos a glória uns aos outros...”. Uma religião que negocia, não? “Negociais a glória entre vós”. Mas eles não entraram pela porta verdadeira. A porta é Jesus e quem não entra por esta porta erra».
        E na missa celebrada no dia 25 de Abril, o Papa Francisco recordou que a Igreja é uma história de amor e nós fazemos parte dela. Mas precisamente por isso, quando se dá demasiada importância à organização, quando escritórios e burocracia assumem uma dimensão predominante, a Igreja perde a sua verdadeira substância e corre o risco de se transformar numa simples organização não governamental. A história de amor à qual o Papa Francisco se referiu durante a missa celebrada na manhã de quarta-feira, 24 de Abril, na capela da Domus Sanctae Marthae, é a da maternidade da Igreja. Uma maternidade, disse, que cresce e se difunde no tempo «e que ainda não acabou», impulsionada não por forças humanas mas «pela força do Espírito Santo». No altar com o Papa estavam presentes o cardeal Javier Lozano Barragán, D. Dominique Rey, Bispo de Fréjus-Toulon, e D. Luigi Renzo, bispo de Mileto-Nicotera-Tropea. Participou na missa também uma representação dos funcionários do Instituto para as Obras de Religião.
        Como acontece habitualmente, o Pontífice comentou as leituras do dia, tiradas dos Atos dos Apóstolos (12, 24 – 13, 5) e do Evangelho de João (12, 44-50). «A primeira leitura — frisou — inicia com estas palavras: “Naqueles dias, a Palavra de Deus crescia e difundia-se”. Trata-se do início da Igreja, no momento que cresce e se difunde em todos os lugares, em todo o mundo». Um facto que, explicou, poderia ser avaliado em termos meramente quantitativos, com satisfação porque deste modo se obtêm mais «seguidores» e se reúnem mais «sócios» para a empresa. Aliás, chega-se até a estabelecer «pactos para crescer».
       Ao contrário «o caminho que Jesus quis para a sua Igreja — disse o Pontífice — é outro: é o caminho das dificuldades, o caminho da cruz e das perseguições». E também isto nos faz pensar: «Mas o que é esta Igreja? Esta nossa Igreja, que não parece ser uma empresa humana, mas é outra coisa». A resposta mais uma vez está no Evangelho, no qual Jesus «nos diz algo que talvez possa iluminar esta pergunta: “Quem crê em mim, não crê em mim mas crê n'Aquele que me enviou”». Também Cristo, explicou, foi «mandado, é enviado por outro!». Portanto, quando indica aos doze apóstolos o programa de vida e o modo de viver, «não o faz por si mesmo» mas «por Aquele que o enviou».



quinta-feira, 30 de maio de 2013

Papa Francisco: Obediência é escuta que liberta

Papa Francisco

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 15 de 14 de Abril de 2013

       Deus não pode ser objecto de negociação. E a fé não prevê a possibilidade de sermos «tíbios», «nem maus nem bons», procurando com «uma vida dupla» chegar a um acordo num «status vivendi» com o mundo. O Papa Francisco disse-o na homilia da missa, celebrada na manhã de quinta-feira 11 de Abril, na capela da Domus Sanctae Marthae, na qual participaram a direção e a redação de «L’Osservatore Romano». Além dos jornalistas do diário estavam presentes também os das edições periódicas e alguns funcionários da direção geral.
       Entre os concelebrantes estava o cardeal indiano Telesphore Placidus Toppo, arcebispo de Ranchi, o arcebispo Mario Aurelio Poli, sucessor de Bergoglio no governo da arquidiocese de Buenos Aires, padre Indunil Janakaratne Kodithuwakku Kankanamalage, subsecretário do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, monsenhor Robinson Edward Wijesinghe, chefe de departamento do Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, padre Sergio Pellini, director-geral da Tipografia Vaticana Editrice L’Osservatore Romano, os jesuítas Władisław Gryzło, encarregado da edição mensal em língua polaca do nosso jornal, e Konrad Grech, e o franciscano conventual Giuseppe Samid. Estavam também presentes o presidente e o secretário-geral da Fundação «Centesimus Annus Pro Pontifice», Domingo Sugranyes Bickel e Massimo Gattamelata.
        Nas leituras, explicou o Papa na homilia, «aparece três vezes a palavra “obedecer”: fala-se da obediência. A primeira vez, quando Pedro responde “é preciso obedecer a Deus e não aos homens”» diante do sinédrio, como referem os Atos dos Apóstolos (5, 27-33).
      O que significa — questionou-se o Pontífice — «obedecer a Deus? Significa que devemos ser como escravos, todos amarrados? Não, porque exatamente quem obedece a Deus é livre, não é escravo! E como se faz? Obedeço, não faço a minha vontade e sou livre? Parece uma contradição. Mas não é uma contradição». De facto «obedecer vem do latim e significa escutar, ouvir o outro. Obedecer a Deus é escutá-Lo, ter o coração aberto para ir pela senda que Deus nos indica. A obediência a Deus é escutar Deus. E isto torna-nos livres».
      Comentando o trecho dos Atos dos Apóstolos, o Pontífice recordou que Pedro «diante destes escribas, sacerdotes e também do sumo sacerdote, dos fariseus» foi chamado a «tomar uma decisão». Pedro «ouvia o que os fariseus e os sacerdotes diziam, e ouvia o que Jesus dizia no seu coração: “o que faço?”. Disse: “Faço o que me diz Jesus, e não o que quereis que eu faça”. E assim foi em frente».
        «Na nossa vida — disse o Papa Francisco — ouvimos também certas propostas que não vêm de Jesus, nem de Deus. Pode-se entender: as nossas debilidades às vezes levam-nos por este caminho. Ou também por outro que é ainda mais perigoso: estabelecemos um acordo, um pouco de Deus e um pouco de vós. Fazemos um acordo e assim continuamos com uma dupla vida: um pouco a vida daquilo que ouvimos de Jesus e um pouco a vida do que escutamos do mundo, os poderes do mundo e muito mais». Mas não é um «bom» sistema. De facto «no livro do Apocalipse, o Senhor diz: isto não é bom, porque assim não sois maus nem bons: sois tíbios. Condeno-vos».
       O Pontífice advertiu exatamente contra esta tentação: «Se Pedro tivesse dito aos sacerdotes: “falemos como amigos e estabeleçamos um status vivendi”, talvez tivesse corrido bem». Mas não teria sido uma escolha própria «do amor que vem quando ouvimos Jesus». Uma escolha que tem consequências. «O que acontece — prosseguiu o Santo Padre — quando escutamos Jesus? Às vezes os que nos fazem outra proposta enraivecem-se e a estrada acaba na perseguição. Neste momento, disse, temos muitas irmãs e irmãos que para obedecer, ouvir, escutar o que Jesus lhes pede estão sob perseguição. Recordemos sempre estes irmãos e irmãs que puseram a carne ao fogo e nos dizem com a própria vida: “Quero obedecer, ir pelo caminho que Jesus me indica”».
        Com a liturgia hodierna «a Igreja convida-nos» a «ir pela senda de Jesus» e a «não ouvir as propostas que o mundo nos faz, propostas de pecado ou tíbias, a meias»: trata-se, reafirmou, de um modo de viver que «não é bom» e «não nos fará felizes».
       Nesta escolha de obediência a Deus e não ao mundo, sem ceder a acordos, o cristão não está sozinho. «Onde encontramos — perguntou-se o Papa — a ajuda para ir pela estrada do ouvir Jesus? No Espírito Santo. Somos testemunhas desses factos: foi o Espírito Santo que Deus doou aos que o obedecem». Portanto, disse, «é precisamente o Espírito Santo dentro de nós que nos dá força para continuar». O Evangelho de João (3, 31-36), proclamado na celebração, com uma bonita expressão, garante: «“Aquele que Deus enviou diz as palavras de Deus: Ele dá o Espírito incomensuravelmente”. O nosso Pai dá-nos o Espírito, sem medidas, para escutar Jesus, ouvir Jesus e ir pela senda de Jesus».
       O Papa Francisco concluiu a homilia com o convite a sermos corajosos nas diversas situações da vida: «Peçamos a graça da coragem. Teremos sempre pecados: somos todos pecadores». Mas serve «a coragem de dizer: “Senhor, sou pecador, às vezes obedeço às coisas mundanas mas quero obedecer a ti, quero caminhar pela tua vereda”. Peçamos esta graça, de ir sempre pela estrada de Jesus. E quando não o fizermos, peçamos perdão: O Senhor perdoa-nos, porque Ele é muito bom».
 


Papa Francisco: Aquele sal que dá sabor



Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 21 de 26 de Maio de 2013

          O cristão, segundo a metáfora evangélica de Mateus (5, 13-14), é chamado a ser sal da terra. Mas se não transmitir o sabor que o Senhor lhe doou, transforma-se num «sal insípido» e torna-se «um cristão de museu». Foi este o tema abordado pelo Papa Francisco na missa celebrada na manhã de quinta-feira 23 de Maio, na capela da Domus Sanctae Marthae.
           O Evangelho do dia (Marcos 9, 41-50) inspirou ao Santo Padre uma reflexão sobre a peculiaridade que caracteriza os cristãos: ou seja, ser para o mundo o que o sal é para a dona de casa e para quem tem bom gosto e aprecia o sabor dos alimentos. «O sal é bom» iniciou o Pontífice. Algo bom «que o Senhor criou», mas «se o sal se tornar insípido — perguntou-se — com que dareis sabor?».
          Fala-se sobre o sal da fé, da esperança e da caridade. «O Senhor dá-nos este sal», esclareceu o Santo Padre que, depois, levantou o problema de como fazer para que «não se torne insípido». «Como se deve fazer, para que o sal não perca a sua força?». Entretanto, o sabor do sal cristão — explicou — nasce da certeza da fé, da esperança e da caridade que surge da consciência de que «Jesus ressuscitou para nós» e nos salvou. Mas esta certeza não nos foi dada simplesmente para a conservar. Se assim fosse, ela acabaria como o sal conservado num pequeno recipiente: «não importa, não serve». Ao contrário, o sal — explicou o Papa — tem sentido quando é usado para dar sabor. Penso que o sal conservado no recipiente com a humildade perde força. E não serve. O sal que nós recebemos é para doar; serve para dar sabor, para ser oferecido»; caso contrário «torna-se insípido e não serve».
          Na reflexão proposta na manhã de quarta-feira 22 de Maio, o Papa afirmou que não se deve matar em nome de Deus. Só pronunciar esta frase é uma blasfêmia. Ao contrário, todos os homem não só podem, mas devem praticar o bem, seja qual for a fé professada, porque «têm em sim o mandamento de fazer o bem» pelo facto de terem sido «criados à imagem de Deus».
         O trecho do Evangelho de Marcos (9, 38-40) proclamado durante a missa narra as queixas dos discípulos em relação a uma pessoa que realizava o bem, mas não pertencia ao grupo deles. «Jesus corrige-os: Não o impeçais, deixai que ele faça o bem. Os discípulos sem pensar, queriam fixar-se numa ideia: só nós podemos fazer o bem, porque nós temos a verdade. E os que não têm a verdade não podem praticar o bem» esclareceu o Pontífice.
         Contudo, trata-se de uma atitude errada. E Jesus corrige-os. A este ponto é lícito «perguntar: quem pode fazer o bem e por que razão? O que significa esta frase de Jesus «não o impeçais»? O que está por detrás?» Neste caso, «os discípulos eram um pouco intolerantes», mas «Jesus alarga o horizonte e nós podemos pensar que ele diz: Se ele pode fazer o bem, todos o podem fazer. Inclusive os que não fazem parte do nosso grupo».
        «Hoje gostaria de pedir ao Senhor — concluiu — esta graça para todos. Descobrir o mandamento que todos temos: fazer o bem, não o mal, e trabalhar sobre este encontrarmo-nos praticando o bem». Um caminho que pode ser percorrido por todos, reafirmou o Papa Francisco, recordando que «hoje é o dia de santa Rita, padroeira das causas impossíveis»; e, por conseguinte, se isso parece impossível, «pedimos-lhe esta graça»: que todos façamos o bem como se fôssemos uma única família. Um «trabalho de criação» definiu-o, obra que se aproxima «da criação do Pai».
      Na manhã de terça-feira 21 de Maio, o Papa Francisco voltou a reafirmar um conceito já expresso noutras ocasiões, ou seja, que o verdadeiro poder é serviço.
       «A luta pelo poder na Igreja — frisou o Pontífice — não é uma questão destes dias, eh? Começou já com Jesus»: quando o Senhor falava da Paixão, os discípulos estavam empenhados em debater sobre qual deles fosse o mais importante, de forma a merecer «a parte maior» daquela que o Papa comparou com um bolo para dividir. Mas na Igreja não deve ser assim. O Santo Padre reafirmou-o citando outro trecho do Evangelho de Mateus (20, 24-26) no qual Jesus explica aos discípulos qual é o verdadeiro sentido do poder: «Os chefes das nações governam-nas como seus senhores, e os grandes exercem sobre elas o seu poder… Mas, não seja assim entre nós» afirmou o bispo de Roma. Portanto, sob o ponto de vista do Evangelho, «a luta pelo poder na Igreja não deve existir. Ou melhor, deve ser a luta pelo poder verdadeiro, ou seja, o que ele, com o seu exemplo, nos ensinou: o poder do serviço. O verdadeiro poder é o serviço.
      Na Igreja não há outro caminho para poder ir em frente. «Para o cristão — esclareceu o Pontífice — ir em frente, progredir, significa abaixar-se. Se não aprendermos esta regra cristã, nunca poderemos compreender a verdadeira mensagem cristã sobre o poder». Por conseguinte, progredir quer dizer estar sempre ao serviço. E «na Igreja é maior quem mais serve, quem mais está ao serviço do próximo. Esta é a regra».
        E sobre os milagres que ainda hoje existem, falou na missa celebrada na manhã de segunda-feira, 20 de Maio. Mas para consentir que o Senhor os faça é necessário uma oração corajosa, capaz de superar «aquela incredulidade» que habita no coração de cada homem, mesmo se homem de fé.
       Uma oração sobretudo por quantos sofrem devido às guerras, às perseguições e a qualquer outro tipo de drama, que abala a sociedade de hoje. Mas a oração deve ser concreta, ou seja, envolver a nossa pessoa e comprometer toda a nossa vida, para superar a incredulidade.



domingo, 26 de maio de 2013

Papa Francisco explica a Trindade às crianças em Roma

2013-05-26 Rádio Vaticana

Cidade do Vaticano (RV) – Neste domingo, 26, Francisco, bispo de Roma, realizou a primeira visita a uma comunidade de sua diocese: a paróquia dedicada aos Santos Isabel e Zacarias, em Prima Porta, na zona norte de Roma. O bairro tem cerca de 15 mil habitantes e não possui muitas áreas de socialização. Assim, nos anos, a paróquia foi se tornando uma referência, e o oratório, um ponto de encontro para crianças e jovens. 
Francisco teve uma recepção calorosa: um longo aplauso dos fiéis, sinos em festa e cantos do coro da paróquia. Depois de saudar doentes em cadeiras de rodas e famílias dos recém-batizados, o Papa celebrou a missa ao ar livre e administrou a primeira comunhão a 16 crianças.
Dirigindo-se aos fiéis, antes do início da missa, Francisco agradeceu a acolhida, neste dia da festa da Trindade, e disse que “para entender melhor a realidade, é preciso vê-la de fora, da periferia”. O Cardeal-vigário de Roma, Agostino Vallini, e o bispo auxiliar para a zona norte, Dom Guerino di Tora, concelebraram a Eucaristia com o Pontífice. 
No momento da homilia, Francisco entreteve uma conversa com as crianças, fazendo-lhes perguntas e convidando-as a responder. Ele começou pelo Evangelho, que neste domingo narra a visita de Maria a Isabel ao saber que ela estava grávida, e explicou a Trindade segundo o cristianismo. 
Maria foi depressa porque tinha vontade de ajudar. Ele não foi lá para se gabar, para dizer “eu sou a mãe de Deus”; ela foi para ajudar Isabel, como nossas mães, que correm quando precisamos delas. Isto dá segurança, a certeza de termos uma mãe ao nosso lado. Nossa Senhora que corre sempre nos faz entender Deus”.
Em seguida, Papa Francisco perguntou às crianças quem são Deus, Jesus e o Espírito Santo, para explicar a Trindade. 
O Pai cria – resumiu – Jesus nos salva, o Espírito Santo nos ama. Esta é a vida cristã: falar com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo. Prosseguindo, em tom divertido, Papa Francisco fez uma pergunta que definiu ‘difícil’: “O que Jesus faz ao caminhar conosco?. Primeiro, nos ajuda – respondeu. Jesus nos orienta, nos ensina a seguir, nos dá a força para caminhar, nos sustenta nas dificuldades e até nas tarefas do colégio... Mas como? Na comunhão nos dá força, vem ao nosso encontro. O que é a comunhão? É pão, mas não é pão, é o corpo de Jesus, que vem ao nosso coração. Vamos pensar nisso e pedir a Maria – concluiu – que nos ensine bem como é Deus, como é o Pai, como é o Filho e o Espírito Santo”.
Depois da missa, o Pontífice se deteve coma s crianças da Primeira Comunhão, que o circundaram, e lhes dedicou alguns minutos de carinho e conversa. 
(CM)

Carta do Papa Francisco ao Geral dos Jesuítas



CARTA DO PAPA FRANCISCO
AO PREPÓSITO-GERAL DA COMPANHIA DE JESUS
PADRE ADOLFO NICOLÁS PACHÓN


Estimado padre Nicolás!
Foi com grande alegria que recebi a amável carta que, por ocasião da minha eleição para o Sólio de São Pedro, o senhor quis enviar-me, em seu nome e no da Companhia de Jesus, e na qual me manifesta a sua oração pela minha pessoa e pelo ministério apostólico, assim como o desejo de continuar a servir de maneira incondicionada a Igreja e o Vigário de Cristo, segundo a regra de Santo Inácio de Loyola.
Agradeço-lhe de coração este sinal de estima e proximidade, que retribuo de bom grado, pedindo ao Senhor que ilumine e acompanhe todos os jesuítas a fim de que, fiéis ao carisma recebido e seguindo os passos dos santos da nossa amada Ordem, possam ser, mediante a acção pastoral mas sobretudo com o testemunho de uma vida inteiramente consagrada ao serviço da Igreja, Esposa de Cristo, fermento evangélico no mundo, numa busca incansável da glória de Deus e do bem das almas.
Com tais sentimentos, peço a todos os jesuítas que rezem por mim e me confiem à salvaguarda amorosa da Virgem Maria, nossa Mãe do céu, enquanto em penhor de abundantes favores divinos concedo com afecto particular a Bênção Apostólica, que faço extensiva a todos aqueles que cooperam com a Companhia de Jesus nas suas actividades, sejam beneficiados pelas suas obras de bem e participem da sua espiritualidade.
Vaticano, 16 de Março de 2013.
FRANCISCO